terça-feira, 29 de julho de 2008

sindical


Inflação e salários unem CUT e FIESP
Definitivamente, a inflação voltou. Não só nos noticiários na TV, no rádio, nos jornais e nas conversas nos bares, mas principalmente nos supermercados, com a remarcação dos preços e dos serviços.Os mais pobres são os mais atingidos. Enquanto os índices oficiais do INPC (IBGE) atingiam 6,64% em maio, para os últimos 12 meses, a inflação média dos alimentos atingia 16,63%, segundo dados do mesmo instituto.Logicamente, para aqueles que ganham os salários mais baixos, a alta dos alimentos pesa muito mais, porque quase todo o salário é consumido com alimentação e aluguel.O governo Lula aplica a fórmula clássica dos neoliberais para conter a inflação: aumenta o superávit, corta gastos sociais e aumenta a taxa de juros (uma das mais altas do mundo) para inibir o consumo.Agora, dizem que é preciso conter os salários para combater a inflação. Esta é a recomendação do Banco Central e da maioria dos empresários. Mais uma vez, retoma-se esta "teoria", usada desde a época da ditadura militar pelo então ministro Delfim Neto.Ocorre que, neste momento, estão sendo preparadas as campanhas salariais de grandes categorias de trabalhadores, como metalúrgicos, bancários, petroleiros, trabalhadores dos Correios e outras. Em todos estes setores, os empresários e banqueiros apresentam índices de crescimento das vendas, produção, faturamento e lucros na casa dos dois dígitos.Com produção aquecida, vendas em alta e grandes lucros, o natural é que os trabalhadores busquem a recomposição das perdas inflacionárias, aumento real de salários fruto do aumento de produtividade e mecanismos que protejam os salários da corrosão da inflação.Esta é a posição da Conlutas (Coordenação Nacional de Lutas), que orienta todos os sindicatos e organizações filiadas a buscar, nestas campanhas salariais, aumento real de salário e reivindicar o reajuste automático dos salários todas as vezes que a inflação atingir, por exemplo, 3%, bem como, exigir redução e congelamento dos preços dos alimentos e gêneros de primeira necessidade. Fazemos isto porque acreditamos que os salários não são responsáveis pela inflação. Neste contexto, seria importante a união dos trabalhadores e das centrais sindicais para desmascarar esta tese patronal, que culpa os salários pelo crescimento da inflação.Infelizmente, vimos por parte da CUT (Central Única dos Trabalhadores) um movimento no sentido inverso. Na semana passada, esta central fez um ato conjunto com a Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), e criaram um grupo de trabalho para discutir "inflação e juros". O documento entregue pela CUT-SP à Fiesp diz que a central "orientará os sindicatos filiados a não introduzirem, neste momento, a política de gatilho automático nos salários". A CUT-SP ainda propõe aos empresários "fazer desta campanha salarial uma demonstração de confiança no país, um exemplo de compromisso pela retomada do desenvolvimento econômico com justiça social".Além disso, o documento inclui propostas como a retomada das câmaras setoriais e a "democratização" do Conselho Monetário Nacional.Ao se unir aos empresários do maior Estado do País, com a federação mais poderosa dos patrões, sob o pretexto de combater a inflação, a CUT se soma à campanha que aponta os salários como responsáveis pela alta da inflação e, se não fosse suficiente, propõe "formas não inflacionárias de participação dos trabalhadores no aumento de produtividade das empresas".É bom lembrar que nos governos anteriores a bandeira da recomposição do valor de compra dos salários, com correção automática dos salários corroídos pela inflação, era uma reivindicação da CUT que mobilizava milhões de trabalhadores. Afinal, o gatilho salarial, se for inserido nas convenções coletivas, apenas repõe o valor que o salário tinha na data-base e não significa um aumento real nos vencimentos dos trabalhadores. Infelizmente, nem esta pequena e justa recuperação a CUT está disposta a defender.Nós da Conlutas achamos que os sindicatos devem defender os interesses de suas bases, independentemente do governo. Defender o aumento do poder de compra dos salários e a proteção contra a inflação é um dever de todas as centrais sindicais, que dizem representar os interesses dos trabalhadores. Os pactos (ou grupos de trabalho, como no caso da CUT) com os empresários, neste momento, só servem para a contenção dos salários e aos interesses dos patrões, e são totalmente prejudiciais aos trabalhadores. Essa postura da CUT deve ser repudiada pelos milhares de trabalhadores que fazem suas campanhas salariais neste segundo semestre.
Luiz Carlos Prates, o Mancha, metalúrgico, secretário geral do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos e membro da Coordenação Nacional da Conlutas

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