terça-feira, 4 de maio de 2010

EDUCAÇÃO POPULAR

Antes, com o movimento dos Pioneiros da Educação Nova, inédita aliança de
socialistas e liberais, em 1932, já se falava em educação popular, esta entendida como a universalização da escola. Nos anos 60, a educação popular, todavia, é entendida não só como um direito de cidadania, mas como a necessidade de encontrar atalhos, queimar etapas e, urgentemente, incluir os excluídos num processo não só educativo, mas, também, político, econômico, social e cultural.
Como todo movimento popular, este dos anos 60, é entendido e explicado a partir
do estudo de conjuntura do período e dos cortes históricos que sejam possíveis fazer para oferecer maior visibilidade à questão. Nessa leitura do mundo (para continuar a balizar o tema com a linguagem de Freire), são evidentes alguns impulsos políticos que vão construir a engenharia histórica do final dos anos 50 e inicio dos 60, a saber.
fonte:(Os textos “Educação Popular, Paulo Freire e os movimentos sociais contemporâneos” (Centro Paulo Freire – Estudos e Pesquisas – III Colóquio Internacional Paulo Freire, Recife, set. 2001) e “De Pé no Chão também se Aprende a Ler – 40 anos depois” (UFRN, Natal, nov. 2001) são aqui complementados e atualizados. Moacyr de Góes).

A Campanha De Pé no Chão, partindo da proposta de erradicar o analfabetismo em Natal vai criar acrescentamentos culturais como o estímulo e a organização de autos populares e folclóricos; assume a preparação do magistério municipal com o seu Centro de 418 Formação de Professores; a iniciação ao trabalho com a sua Campanha de Pé no Chão também se Aprende uma Profissão; as praças de cultura e a criação de bibliotecas populares, programações diárias em rádios, construindo uma política educacional orgânica de e com as classes sociais urbanas subordinadas. Sua especificidade é desvelar que a escola não é o prédio escolar e, assim, ensinou crianças, jovens e adultos em Acampamentos cobertos de palha de coqueiro e sobre chão de barro batido, formas arquitetônicas idênticas às casas dos pescadores das praias. Com isso barateou os custos e
multiplicou as oportunidades de escolas .
(Moacyr de Góes)

trouxe essa referência do texto de Moacyr de Góes para refletir sobre uma realidade que se impõe no trabalho do educador. Falo particulamente do meu lugar de trabalho. Sou um educador da rede pública estadual do RN, na cidade de Currais Novos. E vou logo a questão sem rodeios. Trabalho em duas escolas da rede estadual. Uma no turno vespertino e outra no turno noturno. A primeira tem como clientela jovens adolescentes em grande maioria de famílas trabalhadoras. Na segunda são os próprios trabalhadores que são a clientela. Nestes dias fiquei sabendo de uma medida comum a ambas as escolas. Os alunos seriam obrigados a comprar uma farda ( uma calça) e seriam obrigados também a virem de tênis para escola. Eu sou professor de História e só tinha visto tamanho autoritarismo durante o período da Ditadura Militar. Ora, se realmente vivemos numa democracia caberia ao Conselho da Escola juntamente com os professores e alunos, os mais interessados, a decidirem sobre este assunto. Isto seria bastante razoável. No entanto, a medida foi tomada por que estava no regulamento da escola - argumento utilizado por um dos diretores da escola. Vejamos uma situação: por que você voltou da escola meu filho? Voltei por que não fui de tênis, ou então, voltei por que a minha calça não é a da farda. Se voltarmos ao texto de Moacyr de Góes iremos perceber o quanto nós educadores retrocedemos. Impedir uma criatura de entrar numa escola para apreender aquilo que a humanidade demorou tanto tempo para construir por causa de um tênis ou de uma calça!!!!? Isso não é falta de bom senso? Para não dizer outra coisa!!!! Na escola de Paulo Freire, que estes educadores enchem a boca para pronunciar, as crianças podiam aprender a ler de pés descalços. Uma pergunta. Um tênis é mais valioso que uma criança, ou um adolescente, ou um adulto? Se nós pomos as coisas no lugar dos homens, então é por que nossas relações estão coisificadas. Sendo assim, não buscamos refletir sobre o mundo dos homens, mas sobre o mundo coisificado dos homens. Infelizmente a prática alienada da maioria dos nossos companheiros leva a reprodução de valores esteriotipados e fetichizados para dentro da escola. Um educador deveria ser aquele que promove a libertação dos preconceitos e não a sua reprodução. Como devemos nos comportar diante de uma situação onde a coisa é mais importante do que as relações humanas? Por que devemos aceitar imposições de todas as ordens? Quem foi que disse que devemos obedecer, quando a ordem é absurda? Se somos seres livres deveríamos valer mais do que um tênis ou uma calça. Como educadores não deveríamos nos ocupar de coisas mais relevantes para o nosso próprio desenvolvimento? Como educadores não deveríamos estar mais atentos àquilo que é essencial e não nos ocuparmos com tolices e aparências? É essa a triste realidade daqueles que deveriam alimentar a alma, o espírito, o intelecto e o corpo dos mais jovens. É comovente para não dizer deprimente assistir a este espetáculo.

Os educadores precisam urgentemente serem educados.

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